14 de abr de 2011

Um

p
.
.
i
.
n
.
.
.
g
.
o

de calma. . .

5 de fev de 2011

Um dia de sonho

Sonhei que sonhava o sonho de um dia
Não fantasiava, era apenas um sonho
Sem coisas voando, sem grito medonho

Sonhei com meus olhos abrindo de dia
E muito embaçado era tudo que via
Depois o sabão e as mãos em meu rosto

Sonhei com a escova e por cima, a pasta
Esfreguei, delizei, até dizer "basta"
O café, muito forte. Só isso que importa.
Fumei, apaguei e sái pela porta.

O dia, nublado, não era esquisito
Sonhei com pessoas além da parede
Mas era ordinário, comum e normal.

Minha sinceridade molhada na lama
Enrugada, encharcada e sorrindo de canto
Dizendo à toa, pra me preocupar

Que dias normais são só sonhos,
Não dias.
E que sonhos malucos
São dias,
Não sonhos.

20 de dez de 2010

Da vida

Da vida, a gente leva, no máximo, nada. Só se leva enquanto se vive. Se você leu muito e isso te ajudou a viver, meus parabéns. Se leu por achar que fosse levar a alguma coisa, meus pêsames. A gente não leva nada, repito. Tudo que fazemos tem que ser pra melhorar. A gente não leva nada, repito. A vida é que leva a a gente. Invariavelmente, à morte. Pense bem no que fazer até lá, por que ali vai ser o seu fim. "Pense bem", veja bem, é bem diferente de "pense muito". É que a nossa vida é tão pequenininha, e é tudo que a gente tem.

19 de nov de 2010

Hoje

Uma coisinha assim intensa
Vem e vai e já se foi
Nunca foi

Sensações planificadas
Que nunca foram nada
E sou eu quem vê de fora
Bate, volta, não aflora

Chora pelo fogo
Da saudade pluvial
Do cigarro sempre aceso

E o reflexo na faca
É muito mais do que uma vida.

10 de set de 2010

Pixels

- Sabe do que eu tava lembrando, Rosa? daquele dia que a gente tinha ido ao jóquei bem de manhãzinha, com o Roque e a Maria, lembra? Que a gente ficou comendo umas torradinhas ali embaixo antes de ir apostar e que o Roque ganhou uns 5 reais apostando no cavalo de um tal de Roberto Fonseca. Nunca tinha ouvido falar desse cara, e você?
- Também não – Respondeu desinteressada.
- Bons tempos aqueles, né? A gente se divertia com qualquer coisa, era uma delícia. Era tudo bem mais tranquilo, sua mãe ainda tava bem de saúde, não ficava ligando de cinco em cinco minutos, como liga hoje.
- Isso é um pouco de exagero, não? – Toca o telefone – Oi, mãe!
- Hum... Exagero... E não tínhamos quase nenhuma preocupação, não existia acordo ortográfico... Você acredita que um dia desses um amigo meu me retornou uma carta corrigindo todos os "erros" cometidos por mim de acordo com o novo acordo ortográfico? Ele nem deve ter prestado atenção na carta, só deve ter ficado procurando cada trema, cada acento agudo em paroxítona com "e", essas besteiras... você não faz idéééia, o Zé é mesmo encucado com essas coisas. Muito rígido, sabe? Certinho demais.
- Febre, mãe? Desde ontem? iiiiiiiiiih...
- E o Flamengo? Manteve a base, parece que esse ano engata. Entrosamento é muito importante, sabe, Rosa? Em time grande, é um super adianto, os jogadores já sabem o que esperar do companheiro, já sabem o que ele vai fazer com a bola, pra onde correr. Isso faz o time ganhar campeonato, sabe? Entrosamento é tudo nessa vida, em qualquer tipo de relacionamento. Se bem que no nosso não é muito bem assim, né? Quanto mais a gente vive junto, mais a gente se desentrosa. Esquisito, não? Porque a gente não é como o Flamengo?
- Tá, mãe, só preciso resolver umas coisas e já tô indo praí. Quê que você tava dizendo, Beto?
- Nada, não. Sua mãe tá doente?
- Tá, falei pra ela tomar chá de camomila.
- Que porra de chá de camomila, Rosa? Essa merda não funciona pra nada, nunca vai funcionar! Você e essas suas curas naturais... Pelo amor de Deus, um Tylenol é tiro e queda.
- No caso dela, tiro e queda é um perigo.
- Não finge que não me entendeu. Odeio quando você faz isso.
- Quê?
- Nada não. Piranha...
- Hã?!
- Esse nosso peixinho. Parece uma piranha, come tudo que vê pela frente.
- Ah, tá. Amor, eu tô indo ali ver como tá minha mãezinha. Você vai ou fica?
- "Ali"?? Sua mãe mora lááá no Méier, não é ali.
- Que seja. Quer alguma coisa da rua?
- Um pacote com 50 bolas de festa, daquelas de encher.
- Só isso?
- Só. Mas tem que ser vermelha. Não compra branca não, é muito feio. E além disso dá pra ver a baba de quem encheu, é horroroso.
- Tá bom. Mas vai ter alguma festa aqui em casa?
- Não, ué. Você sempre soube que eu gosto de encher essas bolas de ar. Me dá a sensação de que eu tô fazendo alguma coisa de útil, sabe? Que o ar que eu tenho dentro de mim tá sendo guardado em algum lugar.
- E uma bola de festa é um lugar digno pra guardar o seu nobre ar?
- Me diz uma coisa. Você quer que eu pixels peitos?
- Oi??
- Nada não. É só um trocadilho que um amigo fez ontem, eu achei genial.
- Como que é mesmo?
- Deixa pra lá, você não vai entender.
- Você sempre me menospreza. Tô indo, Betinho, fica com Deus.
- Manda um beijo pra sua mãe. Até logo, demora não.
- Vou num pé e volto noutro. Beijo!

Pedantismo literário

O mar, atordoado,
Realiza sua alvura
Em belas ondas
Sem fragrância

A rosa, desmaiada,
Chora o amor
De ostracismo
Do esmerado
Cavalheiro

Reunidas as malvinas
Rezam alvas flores rubras
Repetidas oratórias
De concubinas em anel

Esmerados sejam vós
Em face do altruísta
Que não retumbem-se as faces
Ao orvalho de minh'alma

Tenho toda a certeza
Excluindo-se o título
E essa derradeira estrofe
Que o poema aqui escrito
Contemplado seria
Para qualquer vão contexto
De talento literário.

E tenho dito, salafrários!

Palheiro

Parem de procurar rimas
Ou sentido ou resposta
Nessas linhas sobrepostas.

Desse jeito elas estão
Porque outro meio não existe
De expressar uma expressão

Que encerra-se em si mesma,
ensimesmada de chatices.
Enjoada de Rimbaud,
Dom Quixote ou Ulisses,
Do tempo de meu avô.

E se achou alguma coisa,
Parabéns!
Aí está!
Aí mesmo...
Viu?