29 de abr. de 2010

Castigo

Quem faz do amor recebido
Puro orgulho do ego
Por uma paixão platônica
Um dia se queda cego

14 de abr. de 2010

Roubem-me, tirem-me tudo
Que a preguiça pariu o poema

30 de mar. de 2010

De manhã

Roubaram-me os primeiros suspiros,
Idos

Tomaram-me o apetite,
Fraco

A sede escorreu
Com a água

Roubaram-me os olhos grudados,
Limpos

A fala embromada mostrou-se
Leve

A tosse de sempre não veio,
Presa

E nem meus bocejos vieram,
Soltos

Hoje parece que não acordei
Ou que o sono não me acometeu
Cedo, na cama, hoje eu não sei
Se aquela cabeça era mesmo eu

22 de mar. de 2010

Chuva nas entranhas

Chovia muito, mas muito mesmo. Chuva dessas que vem uma vez a cada três anos. E eu me divertia com o espetáculo (sempre amei chuva, desde quando era uma criança cabeçuda). De dentro de um apartamento em São Paulo, num prédio desses que têm uns vinte por andar, eu olhava bestificado a chuva pela janela. Era uma janela simples, de vidro, com o corrimento travando de vez em quando aqui e ali. Fechei-a bem fechada, não sem antes experimentar alguma dificuldade, e me deitei no sofá que ocupava quase a sala inteira, para uma admiração mais demorada. O que eu sempre gostei da chuva é que ela faz todas as pessoas tomarem decisões diferentes das que tinham planejado previamente. Todos os caminhos são modificados, o trânsito às vezes pára, uma capa de plástico vira peça fundamental e um novo amor pode acontecer num guarda-chuva dividido por dois. Sim, porque a chuva aproxima todos. Fisicamente, é fácil de perceber: todos, invariavelmente, vão em busca de um lugar coberto, esperam a chuva passar e não resta o que fazer senão bater um papo, jogar conversa fora, dar uns beijos, uns abraços. E, para a cabeça, ela traz uma vontade de carinho, uma bondade sem razão. Deve ser o cheiro de terra molhada. A chuva tem um quê de bucólico. A chuva é clássica.
Não há maior solidão do que passar a noite sozinho num quarto de hotel de São Paulo, costuma dizer o meu pai. Há sim. Se estiver chovendo. Eu, que sempre fui chegado a curtir uma solidão de vez em quando, aproveitava a oportunidade única. E lembrava do meu maior amor, que já tinha ido embora. Nunca consegui dizer que meu amor morreu. Amor não morre, vai passear. E sempre volta. Um novo amor nunca substitui nenhum. Amor não substitui amor. Acrescenta.
E lembrava dessa mulher inacreditável que entrara na minha vida anos atrás, anos longínquos dos quais eu praticamente não me recordo. Lembro dela, só dela. O resto é só o resto. Refiz, involuntariamente, todos seus trejeitos, todas suas nuances, seus mínimos movimentos. Vi minha menina passeando ao longe. Como eu gostava de vê-la andar, como era graciosa, nunca fiquei com tanto tesão só de ver alguém caminhando. Lembrei da sua mão, que eu chamava de mão de gordinha. Volta e meia lhe dizia: meu amor, você foi feita pra ser gordinha, mas deu (quase) tudo errado. Suas mãos eram lindas, lindas, lindas. Tal como seus pezinhos, que pareciam esculpidos. De feia, não tinha nada. Comecei a refazer (ai, que perigo) o caminho de seus lábios em meu corpo. Como me beijava deliciosamente, primeiro a boca, depois os braços, os ombros, a camisa deslizando por cima dos meus braços, as calças caindo pelas minhas magras pernas, e seus lábios continuando seu trajeto. Beijava-me o peito, elogiava minha pele, descia pela barriga, estalava meu umbigo, chegava nas entradas e ai, meu Deus que eu não sei quem é, desse jeito eu morro agora mesmo...
E que vida intensa tinha meu amor. Que jeito maravilhoso de se entregar a tudo, de entender tão fácil, de crescer tão leve. Era um adulto bobo, ou uma criança madura, como preferirem. Como dói não poder mais sentir seus braços me apertando, não ver mais seus olhinhos piscando, ter sua pele contra a minha, nossas mãos se entrelaçando, junto com as nossas almas. Como sinto falta das nossas sincronias inacreditáveis, de como passávamos horas sem dizer uma palavra e falávamos juntos qualquer coisa em uníssono.
Mas às vezes penso é que fui muito sortudo, de ter ao menos encontrado essa pessoa, de ter tido um amor para chamar de meu. Quem sabe a convivência nos teria destruído, quem sabe o relacionamento teria esfriado. Ou quem sabe nós seríamos velhinhos adoráveis, sentados um ao lado do outro em uma enorme cadeira de balanço, contentando-nos em balançar juntos quando não tivéssemos mais força para consumir fisicamente nosso amor.

2 de fev. de 2010

Rosas

De bobeiras benfazejas
Se constrói um belo amor
E assim se enveredavam
Joaninha e Seu João
Pelas ruas de São Cosme
Em dia de Damião

Do recato povoado
De mulheres e meninos
Joaninha e Seu João
Contemplavam trapalhadas
Com a graça de um cão

Passeavam vagarosos,
De mãos dadas, sem razão
Cumplicidade mais que plena,
Joaninha e Seu João

Pois por puro entendimento,
Cada um servia o outro,
Dividindo como irmãos.

E num dia sem estrelas,
Numa noite sem luar

Seu João surpreendeu

Joaninha sem respirar

E um dia se passou,
Seu João se acabrunhou

Recolhido em seu canto,
Sem ninguém pra acarinhar,
O velhinho se escusava

De lamentos ou conversas
Que lembrassem sua vida
Que se fora juntamente
Com Joana, pelo ar.

Só vazio, nada mais
Nem um pinto pra piar
Ou uma rosa a exalar
Tirariam o velho moço
Do estupor de sua perda


Por capricho ou outra coisa
Já passados longos anos,
Seu João ensaia a fala
A quem passa caminhando:
Você sabe como faço
Pra não acordar chorando?

29 de jan. de 2010

A palavra

A palavra pode ser tola
Se assim for o ouvinte
A palavra é um cubo
Se quadrado for quem escreve.
A palavra pode ser plana
Se for áspero o leitor

A palavra, ela sozinha, ela morre.
Os homens a alimentam.
Os loucos desdobram-nas
E às vezes escolhem uma só
pra repetir
e
repetir

As palavras, repetidas, não mais significam

As palavras, quando a emoção estoura,
Recusam-se a aparecer.
Apertam-se no peito, nos pulmões de quem chora.
Com muito esforço, uma silabinha é cuspida.
Tossida.


Palavra é poesia
Se poeta for você, que lê.

A palavra insiste em pulular
Mesmo quando, sem mais ar pelo nariz,
O enternecido moço diz:
Sem palavras...

20 de jan. de 2010

Que herói...

“É impossível deixar de nutrir algo que se alimenta sozinho. Como não regar um amor que cresce independente? É como não cometer loucuras em um manicômio.”
Era o que pensava nosso herói solidário. Era o que vinha a sua mente em um momento como esses. Que vontade que tinha de gritar, de mostrar a todos o que sentia. Bobo. Não precisava de nada disso. Bastava viver, bastava existir, deslizar. Palavras sempre foram um caminho dificultoso para o rapaz. E por que insistia tanto em se expressar por elas? Desenhava tão bem, tocava tão deliciosamente, ouvia tudo com tanta sensibilidade que seria capaz de causar inveja a um cego. Mesmo assim, sempre, sempre, sempre tentava escrever cartas de amor, sempre tentava externar em frases, letras, contos, poemas, tudo que sentia. Mas nunca passava do começo. Nunca deixava de amassar uma página antes da segunda linha e seguia torturando-se como faz uma tartaruga com sede que tenta atravessar a ponte Rio-Niterói em busca de água que só encontra no outro lado. Feliz e infeliz esse nosso herói. Tinha a felicidade na mão, no peito, na cabeça. E queria pô-la pra fora de todos os jeitos! Mas que mania! Não lhe bastava a tela, não lhe bastavam as teclas do piano, as cordas do violão. Tinha porque tinha que escrever lindas palavras tolas de amor. Ridículo como todos os amantes, escrevia bobeiras numa folha de papel. Autocrítico como nenhum amante, amassava tudo. Até que um dia sua irmã revirou sua lata de lixo. E chorou. Chorou em cântaros, como nunca havia chorado em sua vida. De emoção, por ler coisas tão lindas. De tristeza, por vê-las no lixo. Contou sua desventura ao irmão. Ele, confuso, passou a desentender todo esse negócio de escrita, poemas... e até mesmo passou a duvidar de sua capacidade ao violão, ao piano, ao pincel. Curioso esse nosso herói.