10 de set. de 2010

Palheiro

Parem de procurar rimas
Ou sentido ou resposta
Nessas linhas sobrepostas.

Desse jeito elas estão
Porque outro meio não existe
De expressar uma expressão

Que encerra-se em si mesma,
ensimesmada de chatices.
Enjoada de Rimbaud,
Dom Quixote ou Ulisses,
Do tempo de meu avô.

E se achou alguma coisa,
Parabéns!
Aí está!
Aí mesmo...
Viu?

6 de set. de 2010

Vagando por aí...

(Esse texto que segue é uma auto-proposta de exercício. Decidi sugerir a mim a seguinte proposta: uma narrativa livre. Mas a liberdade, aqui, consiste mais na aventura do personagem que no modo de escrever. Não vão surgir palavras desconexas do meio do nada. Apenas a trilha que o personagem descreverá seguirá uma livre linha de pensamento que vier à minha cabeça, podendo, por exemplo, domir em Itu e acordar em Londres; entrar no Rebouças e sair no Coliseu. E etc. Divirtam-se e experimentem fazer o mesmo pra ver o que sai! O mais legal é que a cada dia, a cada hora, pode e DEVE sair um texto diferente do q já foi escrito, podendo revelar mtas coisas sobre vc e seu atual estado pra vc mesmo... (nããão, esse não é um exercício de autoajuda nem de psicanálise. é só uma brincadeira saudável.) )

Ainda dormindo, segundos antes de acordar, pensei: abrir os olhos seria uma bela forma de começar o dia. Porém acordei com eles cerrados ainda. Uns 5 misteriosos segundos depois, o barulho de flechas zunindo e tiros de canhão me forçou a abrir as pálpebras antes cerradas. Eis que me vejo no fim do século XIX, no meio de um acampamento cheyenne recém-atacado por brancos ensandecidos em busca de ouro. Vi genitais de índios pendurados em paus, vi crianças de colo mortas no colo de suas mães. Vi mães fora de si, gritando inutilmente com seus filhos para que voltassem à vida. Curiosamente, ouvi minha própria voz a me alertar: "Qual a novidade, meu filho? Você vê pior que isso todo dia."

Ainda perturbado e sem entender meu próprio "conselho", fui conversar com um dos sobreviventes do massacre, algum tempo depois de a situação ter amainado. O ombro do índio a que me dirigi ainda pingava um sangue reluzente e sua feição parecia tão tranquila como se ele estivesse tomando um café-da-manhã corriqueiro. Ainda estranhando tudo, fui ter com ele. Aproximei-me e, quando cheguei bem perto, de repente me vi transportado para uma sala de escritótio bem asseada na Inglaterra do século XXI. O homem ainda estava lá, mas agora ele usava terno, tinha olhos gélidos e uma estranha coloração vermelha no rosto, à semelhança do cheyenne ferido. Falava a mim, em meio a gargalhadas que ressaltavam sua engenhosidade, como se eu fizesse parte de sua empresa há anos. E me contava das estratégias de publicidade infalíveis que ele, genialmente, havia desenvolvido, com base em resultados de pesquisa que anilasavam os principais anseios da população, sua forma de pensar, agir e comprar e toda a relação que levava uma coisa à outra.

O homem havia desenvolvido, a partir de todas conclusões a respeito de sua pesquisa, um forma de fazer um ser humano realmente acreditar que ele precisa de um produto inútil. Qualquer um. Ele seria capaz de convencer um jogador de futebol do Íbis a ter a coleção completa de Sêneca em capa dura em casa. Ou um cozinheiro francês de que o miojo instantâneo é sensacionalmente delicioso e melhor que a comida orgânica que ele faz. Estarrecido e decepcionado com o propósito a que o rapaz havia destinado tão estimada pesquisa, rezei para me desmaterializar e aparecer em outro lugar.

Preces atendidas, vamos para o Rio de Janeiro da década de 60. Ditadura militar rolando solta e eu sentado no sofá de uma casa isolada no topo do Jardim Botânico, com vista maravilhosa para a Lagoa. A discussão era sobre músicos. Músicos revolucionários e alienados. Ainda com os olhos marejados da "viagem", eu não poderia ainda discernir as formas que via na minha frente. Ouvia só as vozes e, aos poucos, fui conseguindo distinguir uma grande cabeleira de costas. Um cabelo curto com olhos grandes e claros. Um outro cabelo curto e negro, com bigodes, barba mal feita e um corpo franzino fazendo gestos e gestos. Havia também, mais recolhido em seu canto, uma cabeça raspada com narizes largos e esporádicos sons. Pois bem. Mal acreditei quando me dei conta de que eu estava entre Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Zé e Gilberto Gil discutindo os caminhos da música brasielira em meio à ditadura e à censura. Não necessariamente nessa ordem, um dizia que era hora de romper com tudo e mandar às favas a censura, escrevendo e gritando palavrões em praça pública. Outro dizia que a poesia poderia passar pelo fino filtro da censura, enquanto Sicrano classificava tal atitude como uma covardia deslavada. Considerando a discussão peculiarmente parecida com tudo que se discute e já se discutiu no mundo, me retirei meio desapontado de ver ordinariedade até em meus maiores ídolos.

Insaciado, incompreendido e incompleto, cansei de vagar e resolvi voltar pra minha vida. Aqui, tudo é fantástico. E normal.

2 de set. de 2010

A última farra de Juan Cagado

Pra vocês que já começaram pensando besteira: não, o apelido de Juan nada tinha a ver com evacuadas escatológicas... Juan era um rapaz de sorte ímpar e era daí que vinha sua alcunha curiosa. Os amigos se impressionavam com sua capacidade quase desengonçada de falar com mulheres lindas, que sempre se interessavam por ele de forma intensa e inexplicável. Vinha principalmente daí a incompreensão de seus chegados. E, como a maioria de nós, os amigos julgavam sorte aquilo que não conseguiam compreender. Assim, Juan Cagado fazia sua fama misteriosa em sua cidade e arredores.

De fala fácil, desenvolta, Juan fazia amizades como quem veste pijamas. Nunca passou mais de uma hora sozinho numa mesa. Sempre vinha alguém lhe acompanhar. E, talvez por falar demais, pouco conheciam de seus anseios mais profundos, de suas agruras passadas, suas desventuras amorosas. Juan não tinha grilos com nada e nem sapos para engolir. Não levava desaforo pra casa simplesmente porque não os catava na rua.

Pois foi numa sexta-feira,
bem alegre e faceira,
como as muitas já vividas,
que Juan entrou calado,
sem olhar nem pras bebidas.

Era um dia como qualquer outro dia excepcional. Uma sexta-feira já traz, em si, pululantes expectativas, travadas pela rotina precedente. Porém nessa, em especial, parecia o céu um pouco leve demais. Há quem jure que sentiu, naquele dia, um leve gosto de madeira misturado pelo ar. Os malucos da cidade estavam mesmo em polvorosa.

As cachaças e os uísques
pareciam hoje ter
multiplicado seu efeito.

E desse jeito, nesse clima, o barzinho da cidade E., que circunda o grande centro, recebia seus fregueses como manda o figurino. Hospedeiro e simpático, Seu Ivo nunca havia sido visto em tamanha excitação:

dentre homens e mulheres,
não escolhia ou hesitava:
só servia muito bem
e para ele isso bastava.

E Juan ali no canto, encostado como sempre, escondido como nunca, provava, pela primeira vez em 30 anos de bar, a capacidade da cozinha de Seu Ivo.

E gostou até demais
Do que veio ao seu prato
Na bandeja o garçom traz
Um lanchinho insensato.
Pois se todos já sabiam
Da alergia de Juan
Muito poucos entendiam
Chegar essa febre vã

Logo hoje, com a gente,
Ele pede camarão.
E se despede (e)ternamente:
Não sou desse mundo, não.

1 de ago. de 2010

Casos de uma noite de verão

(Inspirado no filme "Sonhos eróticos de uma noite de verão", do sempre elucidativo e sempre chato Woody Allen)

Num bosque arredio,
Casando amanhã
Os casais, já previstos,
Estavam assim:

A vida e a Morte
Ébrios sofriam
De nunca dormirem
Em camas iguais

O Tempo e o Espaço
Sempre reclamavam
Pois um sempre mata
O que o outro traz

A Arte e a Perícia,
Tão donos de si,
Se degladiavam:
"Quem somos aqui?"

Até que uma brisa,
Ou um vento mais forte,
O tempo mudou
E troxe outra sorte

De modo que a Vida,
De frente pra Arte,
De pronto falou:
"Por que imitar-te?"
De modo que a Arte,
Sem mal respondeu:
"Eu sem você
É a morte do "eu"

O Espaço e a Perícia,
Teóricos reis,
Nem sabem depois
Se são dois ou são seis

E o Tempo e a Morte,
Sozinhos num canto,
Nem bem por acaso,
Nem bem por engano,
Conformam-se ambos:
"Poderíamos nós
Ter algum outro plano?"

27 de jul. de 2010

Horrostalgia

Não queira ser a ex-diva
Que do alto de seus sessenta
Joga leite condensado
em pequenas rodelas
em seus seios antes rijos
esperando alguém chegar
e, em seu umbigo,

sente as cócegas das formigas.

12 de jul. de 2010

A fazenda de Alberto

Rude, rude, rude, era tudo muito rude nessa época do ano na fazenda de Alberto
Não havia coelhinhos nem cachorros imponentes que atrevessem chegar perto
Lá de fora já se via que uma hora do dia lá de dentro não passava

Era tudo estatiquinho e um pulo no banheiro demorava mil minutos
Na fazenda de Alberto não havia numeral, nem relógio pra contar
Quanto tempo se perdia parado contando as horas

Nem a fome lá havia, pois ficava-se por horas encostado numa árvore e esquecia-se a barriga
Os pintinhos nem ciscavam, pois sabiam que de nada adiantava ir pra lá ou para cá se tornariam ao seu lugar
Vacas não faziam leite, o guardavam em seu corpo, sem data de validade

E as palavras, na fazenda, se estranhavam pelo ar, ninguém precisava mais falar.
Desesperadas, já não tinham mais valor. O tempo não vinha apagá-las nem reescrevê-las.
Se embrenhavam como nós que se auto emaranhavam, pura falta de opção.
Nem "bom dia" mais saía, as palavras impediam.

Esta época do ano era a mesma o ano todo.

Num espaço sem um tempo, é assim que as coisas são. Tudo habita, continua. Nada nasce, nada morre.

A fazenda de Alberto lá ainda permanece.
Paradinha, paradinha.
Tome conta pra você
Não querer chamá-la "minha".

1 de jun. de 2010

A força e a leveza

O mundo era mais leve
Se tivéssemos força