(Inspirado no filme "Sonhos eróticos de uma noite de verão", do sempre elucidativo e sempre chato Woody Allen)
Num bosque arredio,
Casando amanhã
Os casais, já previstos,
Estavam assim:
A vida e a Morte
Ébrios sofriam
De nunca dormirem
Em camas iguais
O Tempo e o Espaço
Sempre reclamavam
Pois um sempre mata
O que o outro traz
A Arte e a Perícia,
Tão donos de si,
Se degladiavam:
"Quem somos aqui?"
Até que uma brisa,
Ou um vento mais forte,
O tempo mudou
E troxe outra sorte
De modo que a Vida,
De frente pra Arte,
De pronto falou:
"Por que imitar-te?"
De modo que a Arte,
Sem mal respondeu:
"Eu sem você
É a morte do "eu"
O Espaço e a Perícia,
Teóricos reis,
Nem sabem depois
Se são dois ou são seis
E o Tempo e a Morte,
Sozinhos num canto,
Nem bem por acaso,
Nem bem por engano,
Conformam-se ambos:
"Poderíamos nós
Ter algum outro plano?"
1 de ago. de 2010
27 de jul. de 2010
Horrostalgia
Não queira ser a ex-diva
Que do alto de seus sessenta
Joga leite condensado
em pequenas rodelas
em seus seios antes rijos
esperando alguém chegar
e, em seu umbigo,
sente as cócegas das formigas.
Que do alto de seus sessenta
Joga leite condensado
em pequenas rodelas
em seus seios antes rijos
esperando alguém chegar
e, em seu umbigo,
sente as cócegas das formigas.
12 de jul. de 2010
A fazenda de Alberto
Rude, rude, rude, era tudo muito rude nessa época do ano na fazenda de Alberto
Não havia coelhinhos nem cachorros imponentes que atrevessem chegar perto
Lá de fora já se via que uma hora do dia lá de dentro não passava
Era tudo estatiquinho e um pulo no banheiro demorava mil minutos
Na fazenda de Alberto não havia numeral, nem relógio pra contar
Quanto tempo se perdia parado contando as horas
Nem a fome lá havia, pois ficava-se por horas encostado numa árvore e esquecia-se a barriga
Os pintinhos nem ciscavam, pois sabiam que de nada adiantava ir pra lá ou para cá se tornariam ao seu lugar
Vacas não faziam leite, o guardavam em seu corpo, sem data de validade
E as palavras, na fazenda, se estranhavam pelo ar, ninguém precisava mais falar.
Desesperadas, já não tinham mais valor. O tempo não vinha apagá-las nem reescrevê-las.
Se embrenhavam como nós que se auto emaranhavam, pura falta de opção.
Nem "bom dia" mais saía, as palavras impediam.
Esta época do ano era a mesma o ano todo.
Num espaço sem um tempo, é assim que as coisas são. Tudo habita, continua. Nada nasce, nada morre.
A fazenda de Alberto lá ainda permanece.
Paradinha, paradinha.
Tome conta pra você
Não querer chamá-la "minha".
Não havia coelhinhos nem cachorros imponentes que atrevessem chegar perto
Lá de fora já se via que uma hora do dia lá de dentro não passava
Era tudo estatiquinho e um pulo no banheiro demorava mil minutos
Na fazenda de Alberto não havia numeral, nem relógio pra contar
Quanto tempo se perdia parado contando as horas
Nem a fome lá havia, pois ficava-se por horas encostado numa árvore e esquecia-se a barriga
Os pintinhos nem ciscavam, pois sabiam que de nada adiantava ir pra lá ou para cá se tornariam ao seu lugar
Vacas não faziam leite, o guardavam em seu corpo, sem data de validade
E as palavras, na fazenda, se estranhavam pelo ar, ninguém precisava mais falar.
Desesperadas, já não tinham mais valor. O tempo não vinha apagá-las nem reescrevê-las.
Se embrenhavam como nós que se auto emaranhavam, pura falta de opção.
Nem "bom dia" mais saía, as palavras impediam.
Esta época do ano era a mesma o ano todo.
Num espaço sem um tempo, é assim que as coisas são. Tudo habita, continua. Nada nasce, nada morre.
A fazenda de Alberto lá ainda permanece.
Paradinha, paradinha.
Tome conta pra você
Não querer chamá-la "minha".
1 de jun. de 2010
10 de mai. de 2010
Sobre ontem, hoje e amanhã
Um castelo aristocrático
Muito pouco prático
Uma festa no castelo
Muita gente no castelo
Muitos modos no castelo
E uns sapos no castelo
No castelo mais que dois é confusão
Bom dia, como vai, imperatriz?
Respondi, mas eu não quis
Conversas hierárquicas imperam na margem do rio que corta a ponte da porta do saguão.
Invejas no estômago caminham ao peito, e vão à laringe
Mas daí nunca passam
As palavras envolvem e circundam
as outras
Até a origem ser mais fim que começo.
Muito pouco prático
Uma festa no castelo
Muita gente no castelo
Muitos modos no castelo
E uns sapos no castelo
No castelo mais que dois é confusão
Bom dia, como vai, imperatriz?
Respondi, mas eu não quis
Conversas hierárquicas imperam na margem do rio que corta a ponte da porta do saguão.
Invejas no estômago caminham ao peito, e vão à laringe
Mas daí nunca passam
As palavras envolvem e circundam
as outras
Até a origem ser mais fim que começo.
29 de abr. de 2010
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