Roubem-me, tirem-me tudo
Que a preguiça pariu o poema
14 de abr. de 2010
30 de mar. de 2010
De manhã
Roubaram-me os primeiros suspiros,
Idos
Tomaram-me o apetite,
Fraco
A sede escorreu
Com a água
Roubaram-me os olhos grudados,
Limpos
A fala embromada mostrou-se
Leve
A tosse de sempre não veio,
Presa
E nem meus bocejos vieram,
Soltos
Hoje parece que não acordei
Ou que o sono não me acometeu
Cedo, na cama, hoje eu não sei
Se aquela cabeça era mesmo eu
Idos
Tomaram-me o apetite,
Fraco
A sede escorreu
Com a água
Roubaram-me os olhos grudados,
Limpos
A fala embromada mostrou-se
Leve
A tosse de sempre não veio,
Presa
E nem meus bocejos vieram,
Soltos
Hoje parece que não acordei
Ou que o sono não me acometeu
Cedo, na cama, hoje eu não sei
Se aquela cabeça era mesmo eu
22 de mar. de 2010
Chuva nas entranhas
Chovia muito, mas muito mesmo. Chuva dessas que vem uma vez a cada três anos. E eu me divertia com o espetáculo (sempre amei chuva, desde quando era uma criança cabeçuda). De dentro de um apartamento em São Paulo, num prédio desses que têm uns vinte por andar, eu olhava bestificado a chuva pela janela. Era uma janela simples, de vidro, com o corrimento travando de vez em quando aqui e ali. Fechei-a bem fechada, não sem antes experimentar alguma dificuldade, e me deitei no sofá que ocupava quase a sala inteira, para uma admiração mais demorada. O que eu sempre gostei da chuva é que ela faz todas as pessoas tomarem decisões diferentes das que tinham planejado previamente. Todos os caminhos são modificados, o trânsito às vezes pára, uma capa de plástico vira peça fundamental e um novo amor pode acontecer num guarda-chuva dividido por dois. Sim, porque a chuva aproxima todos. Fisicamente, é fácil de perceber: todos, invariavelmente, vão em busca de um lugar coberto, esperam a chuva passar e não resta o que fazer senão bater um papo, jogar conversa fora, dar uns beijos, uns abraços. E, para a cabeça, ela traz uma vontade de carinho, uma bondade sem razão. Deve ser o cheiro de terra molhada. A chuva tem um quê de bucólico. A chuva é clássica.
Não há maior solidão do que passar a noite sozinho num quarto de hotel de São Paulo, costuma dizer o meu pai. Há sim. Se estiver chovendo. Eu, que sempre fui chegado a curtir uma solidão de vez em quando, aproveitava a oportunidade única. E lembrava do meu maior amor, que já tinha ido embora. Nunca consegui dizer que meu amor morreu. Amor não morre, vai passear. E sempre volta. Um novo amor nunca substitui nenhum. Amor não substitui amor. Acrescenta.
E lembrava dessa mulher inacreditável que entrara na minha vida anos atrás, anos longínquos dos quais eu praticamente não me recordo. Lembro dela, só dela. O resto é só o resto. Refiz, involuntariamente, todos seus trejeitos, todas suas nuances, seus mínimos movimentos. Vi minha menina passeando ao longe. Como eu gostava de vê-la andar, como era graciosa, nunca fiquei com tanto tesão só de ver alguém caminhando. Lembrei da sua mão, que eu chamava de mão de gordinha. Volta e meia lhe dizia: meu amor, você foi feita pra ser gordinha, mas deu (quase) tudo errado. Suas mãos eram lindas, lindas, lindas. Tal como seus pezinhos, que pareciam esculpidos. De feia, não tinha nada. Comecei a refazer (ai, que perigo) o caminho de seus lábios em meu corpo. Como me beijava deliciosamente, primeiro a boca, depois os braços, os ombros, a camisa deslizando por cima dos meus braços, as calças caindo pelas minhas magras pernas, e seus lábios continuando seu trajeto. Beijava-me o peito, elogiava minha pele, descia pela barriga, estalava meu umbigo, chegava nas entradas e ai, meu Deus que eu não sei quem é, desse jeito eu morro agora mesmo...
E que vida intensa tinha meu amor. Que jeito maravilhoso de se entregar a tudo, de entender tão fácil, de crescer tão leve. Era um adulto bobo, ou uma criança madura, como preferirem. Como dói não poder mais sentir seus braços me apertando, não ver mais seus olhinhos piscando, ter sua pele contra a minha, nossas mãos se entrelaçando, junto com as nossas almas. Como sinto falta das nossas sincronias inacreditáveis, de como passávamos horas sem dizer uma palavra e falávamos juntos qualquer coisa em uníssono.
Mas às vezes penso é que fui muito sortudo, de ter ao menos encontrado essa pessoa, de ter tido um amor para chamar de meu. Quem sabe a convivência nos teria destruído, quem sabe o relacionamento teria esfriado. Ou quem sabe nós seríamos velhinhos adoráveis, sentados um ao lado do outro em uma enorme cadeira de balanço, contentando-nos em balançar juntos quando não tivéssemos mais força para consumir fisicamente nosso amor.
Não há maior solidão do que passar a noite sozinho num quarto de hotel de São Paulo, costuma dizer o meu pai. Há sim. Se estiver chovendo. Eu, que sempre fui chegado a curtir uma solidão de vez em quando, aproveitava a oportunidade única. E lembrava do meu maior amor, que já tinha ido embora. Nunca consegui dizer que meu amor morreu. Amor não morre, vai passear. E sempre volta. Um novo amor nunca substitui nenhum. Amor não substitui amor. Acrescenta.
E lembrava dessa mulher inacreditável que entrara na minha vida anos atrás, anos longínquos dos quais eu praticamente não me recordo. Lembro dela, só dela. O resto é só o resto. Refiz, involuntariamente, todos seus trejeitos, todas suas nuances, seus mínimos movimentos. Vi minha menina passeando ao longe. Como eu gostava de vê-la andar, como era graciosa, nunca fiquei com tanto tesão só de ver alguém caminhando. Lembrei da sua mão, que eu chamava de mão de gordinha. Volta e meia lhe dizia: meu amor, você foi feita pra ser gordinha, mas deu (quase) tudo errado. Suas mãos eram lindas, lindas, lindas. Tal como seus pezinhos, que pareciam esculpidos. De feia, não tinha nada. Comecei a refazer (ai, que perigo) o caminho de seus lábios em meu corpo. Como me beijava deliciosamente, primeiro a boca, depois os braços, os ombros, a camisa deslizando por cima dos meus braços, as calças caindo pelas minhas magras pernas, e seus lábios continuando seu trajeto. Beijava-me o peito, elogiava minha pele, descia pela barriga, estalava meu umbigo, chegava nas entradas e ai, meu Deus que eu não sei quem é, desse jeito eu morro agora mesmo...
E que vida intensa tinha meu amor. Que jeito maravilhoso de se entregar a tudo, de entender tão fácil, de crescer tão leve. Era um adulto bobo, ou uma criança madura, como preferirem. Como dói não poder mais sentir seus braços me apertando, não ver mais seus olhinhos piscando, ter sua pele contra a minha, nossas mãos se entrelaçando, junto com as nossas almas. Como sinto falta das nossas sincronias inacreditáveis, de como passávamos horas sem dizer uma palavra e falávamos juntos qualquer coisa em uníssono.
Mas às vezes penso é que fui muito sortudo, de ter ao menos encontrado essa pessoa, de ter tido um amor para chamar de meu. Quem sabe a convivência nos teria destruído, quem sabe o relacionamento teria esfriado. Ou quem sabe nós seríamos velhinhos adoráveis, sentados um ao lado do outro em uma enorme cadeira de balanço, contentando-nos em balançar juntos quando não tivéssemos mais força para consumir fisicamente nosso amor.
2 de fev. de 2010
Rosas
De bobeiras benfazejas
Se constrói um belo amor
E assim se enveredavam
Joaninha e Seu João
Pelas ruas de São Cosme
Em dia de Damião
Do recato povoado
De mulheres e meninos
Joaninha e Seu João
Contemplavam trapalhadas
Com a graça de um cão
Passeavam vagarosos,
De mãos dadas, sem razão
Cumplicidade mais que plena,
Joaninha e Seu João
Pois por puro entendimento,
Cada um servia o outro,
Dividindo como irmãos.
E num dia sem estrelas,
Numa noite sem luar
Seu João surpreendeu
Joaninha sem respirar
E um dia se passou,
Seu João se acabrunhou
Recolhido em seu canto,
Sem ninguém pra acarinhar,
O velhinho se escusava
De lamentos ou conversas
Que lembrassem sua vida
Que se fora juntamente
Com Joana, pelo ar.
Só vazio, nada mais
Nem um pinto pra piar
Ou uma rosa a exalar
Tirariam o velho moço
Do estupor de sua perda
Por capricho ou outra coisa
Já passados longos anos,
Seu João ensaia a fala
A quem passa caminhando:
Você sabe como faço
Pra não acordar chorando?
Se constrói um belo amor
E assim se enveredavam
Joaninha e Seu João
Pelas ruas de São Cosme
Em dia de Damião
Do recato povoado
De mulheres e meninos
Joaninha e Seu João
Contemplavam trapalhadas
Com a graça de um cão
Passeavam vagarosos,
De mãos dadas, sem razão
Cumplicidade mais que plena,
Joaninha e Seu João
Pois por puro entendimento,
Cada um servia o outro,
Dividindo como irmãos.
E num dia sem estrelas,
Numa noite sem luar
Seu João surpreendeu
Joaninha sem respirar
E um dia se passou,
Seu João se acabrunhou
Recolhido em seu canto,
Sem ninguém pra acarinhar,
O velhinho se escusava
De lamentos ou conversas
Que lembrassem sua vida
Que se fora juntamente
Com Joana, pelo ar.
Só vazio, nada mais
Nem um pinto pra piar
Ou uma rosa a exalar
Tirariam o velho moço
Do estupor de sua perda
Por capricho ou outra coisa
Já passados longos anos,
Seu João ensaia a fala
A quem passa caminhando:
Você sabe como faço
Pra não acordar chorando?
29 de jan. de 2010
A palavra
A palavra pode ser tola
Se assim for o ouvinte
A palavra é um cubo
Se quadrado for quem escreve.
A palavra pode ser plana
Se for áspero o leitor
A palavra, ela sozinha, ela morre.
Os homens a alimentam.
Os loucos desdobram-nas
E às vezes escolhem uma só
pra repetir
e
repetir
As palavras, repetidas, não mais significam
As palavras, quando a emoção estoura,
Recusam-se a aparecer.
Apertam-se no peito, nos pulmões de quem chora.
Com muito esforço, uma silabinha é cuspida.
Tossida.
Palavra é poesia
Se poeta for você, que lê.
A palavra insiste em pulular
Mesmo quando, sem mais ar pelo nariz,
O enternecido moço diz:
Sem palavras...
Se assim for o ouvinte
A palavra é um cubo
Se quadrado for quem escreve.
A palavra pode ser plana
Se for áspero o leitor
A palavra, ela sozinha, ela morre.
Os homens a alimentam.
Os loucos desdobram-nas
E às vezes escolhem uma só
pra repetir
e
repetir
As palavras, repetidas, não mais significam
As palavras, quando a emoção estoura,
Recusam-se a aparecer.
Apertam-se no peito, nos pulmões de quem chora.
Com muito esforço, uma silabinha é cuspida.
Tossida.
Palavra é poesia
Se poeta for você, que lê.
A palavra insiste em pulular
Mesmo quando, sem mais ar pelo nariz,
O enternecido moço diz:
Sem palavras...
20 de jan. de 2010
Que herói...
“É impossível deixar de nutrir algo que se alimenta sozinho. Como não regar um amor que cresce independente? É como não cometer loucuras em um manicômio.”
Era o que pensava nosso herói solidário. Era o que vinha a sua mente em um momento como esses. Que vontade que tinha de gritar, de mostrar a todos o que sentia. Bobo. Não precisava de nada disso. Bastava viver, bastava existir, deslizar. Palavras sempre foram um caminho dificultoso para o rapaz. E por que insistia tanto em se expressar por elas? Desenhava tão bem, tocava tão deliciosamente, ouvia tudo com tanta sensibilidade que seria capaz de causar inveja a um cego. Mesmo assim, sempre, sempre, sempre tentava escrever cartas de amor, sempre tentava externar em frases, letras, contos, poemas, tudo que sentia. Mas nunca passava do começo. Nunca deixava de amassar uma página antes da segunda linha e seguia torturando-se como faz uma tartaruga com sede que tenta atravessar a ponte Rio-Niterói em busca de água que só encontra no outro lado. Feliz e infeliz esse nosso herói. Tinha a felicidade na mão, no peito, na cabeça. E queria pô-la pra fora de todos os jeitos! Mas que mania! Não lhe bastava a tela, não lhe bastavam as teclas do piano, as cordas do violão. Tinha porque tinha que escrever lindas palavras tolas de amor. Ridículo como todos os amantes, escrevia bobeiras numa folha de papel. Autocrítico como nenhum amante, amassava tudo. Até que um dia sua irmã revirou sua lata de lixo. E chorou. Chorou em cântaros, como nunca havia chorado em sua vida. De emoção, por ler coisas tão lindas. De tristeza, por vê-las no lixo. Contou sua desventura ao irmão. Ele, confuso, passou a desentender todo esse negócio de escrita, poemas... e até mesmo passou a duvidar de sua capacidade ao violão, ao piano, ao pincel. Curioso esse nosso herói.
Era o que pensava nosso herói solidário. Era o que vinha a sua mente em um momento como esses. Que vontade que tinha de gritar, de mostrar a todos o que sentia. Bobo. Não precisava de nada disso. Bastava viver, bastava existir, deslizar. Palavras sempre foram um caminho dificultoso para o rapaz. E por que insistia tanto em se expressar por elas? Desenhava tão bem, tocava tão deliciosamente, ouvia tudo com tanta sensibilidade que seria capaz de causar inveja a um cego. Mesmo assim, sempre, sempre, sempre tentava escrever cartas de amor, sempre tentava externar em frases, letras, contos, poemas, tudo que sentia. Mas nunca passava do começo. Nunca deixava de amassar uma página antes da segunda linha e seguia torturando-se como faz uma tartaruga com sede que tenta atravessar a ponte Rio-Niterói em busca de água que só encontra no outro lado. Feliz e infeliz esse nosso herói. Tinha a felicidade na mão, no peito, na cabeça. E queria pô-la pra fora de todos os jeitos! Mas que mania! Não lhe bastava a tela, não lhe bastavam as teclas do piano, as cordas do violão. Tinha porque tinha que escrever lindas palavras tolas de amor. Ridículo como todos os amantes, escrevia bobeiras numa folha de papel. Autocrítico como nenhum amante, amassava tudo. Até que um dia sua irmã revirou sua lata de lixo. E chorou. Chorou em cântaros, como nunca havia chorado em sua vida. De emoção, por ler coisas tão lindas. De tristeza, por vê-las no lixo. Contou sua desventura ao irmão. Ele, confuso, passou a desentender todo esse negócio de escrita, poemas... e até mesmo passou a duvidar de sua capacidade ao violão, ao piano, ao pincel. Curioso esse nosso herói.
8 de jan. de 2010
Marcos e o velhinho
Marcos, sentado num banco azul-marinho de uma praça enorme, esperava outro dia normal. Lia seu jornal às nove e meia da manhã, com o sol a lhe dourar apenas o lado direito do rosto fino e comprido (o resto de seu corpo estava coberto pela sombra de um cajueiro), quando se sentou ao seu lado um velhinho. Pediu licença, ajeitou seu bonezinho verde-limão e acomodou-se. Marcos, com o canto do olho, dirigiu ao recém-chegado uma avaliação relâmpago: calçava umas sandálias de palha acolchoadas e amarelecidas pelo tempo. Devem ser confortáveis, matutou o jovem. Prosseguiu a avaliação e não pôde deixar de notar os joanetes do tamanho de uma bola de tênis que o moço cultivava. Seus olhos, aos poucos, foram subindo pelas pernas: as canelas mais pareciam as de um colecionador de pelancas. Passou a achar a cara de seu bulldog de 13 anos muito menos feia. Subiu mais um pouquinho e reparou que as rótulas do joelho do senhor estavam tão no lugar quanto as íris do vesgo mais vesgo do universo. Acima, uma daquelas visões tenebrosas dignas de um clímax de um livro chato, em que se lê 400 páginas à espera de alguma pequena emoção e que se revela uma boa de uma perda de tempo, um romance inacabado de um aspirante a escritor que não sabia o que contar: a barriga caía pela cintura, pélvis abaixo.
Extasiado de tanta surpresa malograda, resolveu voltar para o jornal, que também não ajudava muito. Leu sobre um suicídio de uma rica excêntrica, que encheu a piscina de sua casa com suco de laranja e foi nadando pro fundo, até quedar-se sem fôlego. Leu sobre uma bala perdida que resvalou num hidrante, numa medalhinha que estava no peito de uma moça e que foi parar na orelha de um cachorro, já sem força.
- Que mundo louco - matutou novamente.
Voltou ao velho. Ele agora fazia movimentos estranhíssimos, levava os dedos aos joelhos deslocados, descia para as meias finas, voltava ao joelho com rapidez pouco usual para uma idade tão avançada.
Quando Marcos, já incomodado, foi levantando-se para ir embora, o senhor se pronunciou:
- Oh, fique mais um pouco, que mal há em fazer 5 minutinhos de companhia a um pobre coitado como eu?
- Ahn... Estou meio atrasado pro trabalho – Foi a primeira desculpa que lhe veio à mente
- Atrasado? – Fez uma cara de cachorro pidão muito bem ensaiada – Tudo bem, então eu fico aqui sozinho, sem nada pra fazer, sem ninguém pra conversar... – lamuriou-se o perspicaz senhorzinho.
- Tudo bem, eu fico um pouco aqui.
- Oh, ainda existem nobres corações nesse mundo! - exclamou, logo depois de encher os pulmões.
Marcos sentou-se de novo. Passaram-se 5 minutos de um agonizante silêncio, até que o jovem disse:
- Bem, agora vou-me indo mesmo. Até.
- Espere mais um pouco! Você não fuma? – Disse o senhor, enquanto punha a mão em tremelique no bolso direito de sua bermudinha...
- Não, obrigado. – Cuspiu Marcos, afastando-se apressado.
- Ei! – Foi sua última palavra. Quando Marcos virou-se para ver o que era, ouviu um estrondoso baque surdo, som de bala fina penetrando com facilidade a cabeça deteriorada de um velho decrépito.
O jovem começou a suar frio e nada mais fez ao longo do dia além de matutar, rezando para que estivesse num pesadelo fugaz.
Extasiado de tanta surpresa malograda, resolveu voltar para o jornal, que também não ajudava muito. Leu sobre um suicídio de uma rica excêntrica, que encheu a piscina de sua casa com suco de laranja e foi nadando pro fundo, até quedar-se sem fôlego. Leu sobre uma bala perdida que resvalou num hidrante, numa medalhinha que estava no peito de uma moça e que foi parar na orelha de um cachorro, já sem força.
- Que mundo louco - matutou novamente.
Voltou ao velho. Ele agora fazia movimentos estranhíssimos, levava os dedos aos joelhos deslocados, descia para as meias finas, voltava ao joelho com rapidez pouco usual para uma idade tão avançada.
Quando Marcos, já incomodado, foi levantando-se para ir embora, o senhor se pronunciou:
- Oh, fique mais um pouco, que mal há em fazer 5 minutinhos de companhia a um pobre coitado como eu?
- Ahn... Estou meio atrasado pro trabalho – Foi a primeira desculpa que lhe veio à mente
- Atrasado? – Fez uma cara de cachorro pidão muito bem ensaiada – Tudo bem, então eu fico aqui sozinho, sem nada pra fazer, sem ninguém pra conversar... – lamuriou-se o perspicaz senhorzinho.
- Tudo bem, eu fico um pouco aqui.
- Oh, ainda existem nobres corações nesse mundo! - exclamou, logo depois de encher os pulmões.
Marcos sentou-se de novo. Passaram-se 5 minutos de um agonizante silêncio, até que o jovem disse:
- Bem, agora vou-me indo mesmo. Até.
- Espere mais um pouco! Você não fuma? – Disse o senhor, enquanto punha a mão em tremelique no bolso direito de sua bermudinha...
- Não, obrigado. – Cuspiu Marcos, afastando-se apressado.
- Ei! – Foi sua última palavra. Quando Marcos virou-se para ver o que era, ouviu um estrondoso baque surdo, som de bala fina penetrando com facilidade a cabeça deteriorada de um velho decrépito.
O jovem começou a suar frio e nada mais fez ao longo do dia além de matutar, rezando para que estivesse num pesadelo fugaz.
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